Por Simone Schneider/Jornal Cockatail
Resumo
Este artigo analisa a trajetória literária e jornalística do escritor Zacarias Martins, uma das figuras mais proeminentes na consolidação da identidade cultural da região Norte do Brasil, especificamente no Tocantins. Nascido em Belém do Pará em 1957 e radicado em Gurupi desde 1983, Martins desenvolveu uma obra multifacetada que transita entre a lírica amorosa, a crônica histórica local e o ativismo cultural. Por meio de uma revisão bibliográfica e documental de suas principais publicações, o estudo discute como sua produção poética inicial e sua posterior dedicação à prosa regionalista contribuíram para o fortalecimento das instituições literárias tocantinenses, culminando em sua atuação como membro-fundador de academias de letras no estado e na inserção de sua obra no cenário pedagógico universitário.
Palavras-chave: Zacarias Martins. Literatura Tocantinense. Gurupi. Identidade Cultural. Vestibular UnirG.
1 Introdução
A construção da identidade literária do estado do Tocantins, emancipado constitucionalmente em 1988, está intrinsecamente ligada ao fluxo migratório de intelectuais que adotaram a nova fronteira geográfica como lar e matéria-prima artística. No cenário da literatura sul-tocantinense, a simbiose entre o fazer jornalístico e a veia poética atua como um vetor de fixação da memória coletiva.
Entre esses agentes, destaca-se Zacarias Martins (nome literário de Zacarias Gomes Martins). Embora natural de Belém (PA), sua mudança para Gurupi em 1983 redefiniu tanto sua escrita quanto o próprio cenário cultural da região sul do estado. Este artigo propõe-se a mapear a evolução de sua produção ficcional e poética, dividindo-a em três fases principais: a gênese lírica no Pará, a consolidação cronística e memorialística em Gurupi, e seu impacto contemporâneo no ambiente escolar e nos exames seletivos de nível superior.
2 A Gênese Poética e a Lírica de Transição
A estreia literária de Zacarias Martins ocorreu ainda em solo paraense no fim da década de 1970. Sua produção poética inicial caracteriza-se por um lirismo que equilibra o classicismo e a sensibilidade moderna, frequentemente explorando temas universais como o amor, a efemeridade do tempo e o cotidiano urbano. Entre seus livros autorais de poesia figuram Transas do Coração (1978), O Poeta de Belém (1979), Poetar (1980), O Profeta da Felicidade (1984), Vox Versus (1986) e Pinga-Fogo (2004).
Análises estéticas de sua obra apontam para uma linguagem cuidada e dotada de musicalidade intrínseca. Poemas como "Sem você" e "O teu olhar", posteriormente resgatados no II Anuário da Poesia Paraense, demonstram a permanência dessa vertente afetiva e contemplativa ao longo das décadas, mesmo após o seu distanciamento físico de sua terra natal (SOUZA, 2016). Na transição para o Tocantins, essa lírica passa a incorporar elementos da paisagem geográfica e humana do Cerrado, marcando o início de sua fase madura.
3 O Jornalismo e a Crônica como Resgate Histórico
Ao fixar residência em Gurupi, Martins estreitou os laços entre a literatura e o fazer jornalístico. Atuou como editor da Perfil, considerada a primeira revista informativa do Tocantins (1989), e colaborou como correspondente em veículos de grande circulação regional, como O Progresso (Araguaína) e o Diário Tocantinense (Palmas).
Essa vivência jornalística refinou seu olhar para a prosa diária, culminando no lançamento de Histórias da História de Gurupi em 2008. A obra afasta-se do rigor estritamente acadêmico da historiografia tradicional para abraçar a crônica afetiva e factual. Segundo Martins (2008), o registro das miudezas cotidianas e das figuras folclóricas locais é o que confere autenticidade à identidade de um povo, funcionando como um anteparo contra o esquecimento institucional.
4 A Obra Didática: O Impacto no Ambiente Escolar e nos Vestibulares da UnirG
A produção literária de Zacarias Martins transcende o espaço das bibliotecas e assume uma função pedagógica ativa no ecossistema educacional do Tocantins, alcançando desde a alfabetização infantil até o ensino superior.
No ambiente da educação básica e da alfabetização, a principal ferramenta do autor é o livro "As Aventuras de Gurupito" (2022). Por meio do projeto itinerante "Rodas de Conversa Literária", Martins percorre escolas das redes estadual e municipal utilizando o carismático personagem Gurupito para despertar o hábito da leitura em crianças. A obra cumpre um papel pedagógico fundamental ao aliar o lúdico à valorização do território, permitindo que os estudantes em fase de alfabetização se reconheçam geograficamente nas narrativas e desenvolvam o sentimento de pertencimento cultural desde a infância (MARTINS, 2022).
Nas séries finais e no ensino médio, a penetração de sua literatura ocorre por meio da crônica. Professores de Língua Portuguesa utilizam seus textos para trabalhar as nuances do humor literário e a estrutura do gênero textual. O ápice desse reconhecimento institucional deu-se por meio da Universidade de Gurupi (UnirG), que selecionou o livro Histórias da História de Gurupi (2008) como leitura obrigatória em duas edições de seu exame vestibular.
A escolha de obras focadas nas vivências locais cumpre uma função político-pedagógica de descolonização curricular. Ao preterir temporariamente o cânone tradicional do Sudeste brasileiro em favor da narrativa regional — seja com o público infantil em As Aventuras de Gurupito ou com os vestibulandos em Histórias da História de Gurupi —, as instituições de ensino validaram a produção tocantinense como portadora de densidade intelectual e eficácia didática. Conforme apontam os registros biobibliográficos da Academia Tocantinense de Letras (2023), essa chancela acadêmica inseriu o autor definitivamente no rol de leituras fundamentais para a compreensão da formação social da região norte.
5 O Ativismo Institucional e Novas Vertentes Literárias
A maturidade literária de Zacarias Martins confunde-se com o seu papel institucional no ecossistema cultural tocantinense. Ele participou ativamente da fundação das principais entidades literárias do estado, ocupando a Cadeira nº 21 da Academia Tocantinense de Letras (ATL) e a Cadeira nº 12 da Academia Gurupiense de Letras (AGL). Sua inserção em mais de 50 antologias nacionais e internacionais, com poemas traduzidos inclusive para o Esperanto, atesta a universalidade de sua escrita regional.
Em 2022, o autor expandiu seu escopo criativo ao publicar sua primeira obra voltada ao público infantil, intitulada As Aventuras de Gurupito. Este movimento em direção à literatura infantojuvenil demonstra a versatilidade de sua produção contemporânea, que se mantém conectada com a renovação de leitores na Amazônia Legal e no Cerrado brasileiro.
6 Considerações Finais
A trajetória literária de Zacarias Martins revela-se paradigmática para a compreensão da literatura contemporânea feita no Tocantins. Sua transição da poesia lírica dos anos 1970 para a crônica histórica e, posteriormente, para a literatura infantil reflete não apenas o amadurecimento de um estilo individual, mas também uma resposta às demandas de uma região em pleno processo de construção de sua identidade social.
A inserção de suas obras nos currículos escolares e nos vestibulares da UnirG consolida Martins como um elo indispensável entre a memória de Gurupi e o panorama das letras nacionais. Conclui-se que seu legado reside na capacidade de transformar a história local em patrimônio estético e pedagógico acessível a novas gerações.
Referências
ACADEMIA TOCANTINENSE DE LETRAS. Dicionário Biobibliográfico de Escritores Tocantinenses. Palmas: ATL, 2023.
MARTINS, Zacarias. As Aventuras de Gurupito. Gurupi: Editora Veloso, 2022.
MARTINS, Zacarias. Histórias da História de Gurupi. Gurupi: Editora Veloso, 2008.
MARTINS, Zacarias. Pinga-Fogo. 3. ed. Gurupi: Editora Veloso, 2004.
SOUZA, Airton (org.). II Anuário da Poesia Paraense. Marabá: Ed. do Autor, 2016.


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