sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Plantão Tira-Dúvidas sobre eleições do CNPC chega a Palmas
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
O futuro da saúde do Tocantins passa pelo Hospital Dom Orione
O futuro da saúde pública do Tocantins exige decisões capazes de assegurar a continuidade do cuidado oferecido à população. Nesse compromisso, o Hospital Dom Orione ocupa uma posição estratégica. Com cinquenta anos de serviço à vida, a instituição representa uma estrutura essencial para a assistência em Araguaína e na região, cuja sustentabilidade precisa estar entre as prioridades de quem pretende governar o estado.
Os números demonstram essa responsabilidade. Segundo os dados institucionais, o hospital responde por mais de 300 mil atendimentos pelo Sistema Único de Saúde, correspondentes a aproximadamente 11% dos atendimentos do SUS no Tocantins. Sua maternidade acolhe, anualmente, o nascimento de mais de 6 mil crianças, cerca de 33% dos nascimentos do estado. São milhares de famílias que encontram na instituição atendimento, acolhimento e esperança.
Mantido pela Pequena Obra da Divina Providência, o Hospital Dom Orione construiu sua trajetória unindo missão filantrópica e responsabilidade assistencial. Essa presença precisa ser considerada nas decisões sobre financiamento, organização dos serviços e distribuição das responsabilidades na rede de saúde.
Durante este período eleitoral, os dois principais candidatos ao Governo do Tocantins, a senadora Dorinha e o deputado Vicentinho, visitaram o hospital e reafirmaram a importância da instituição e sua posição estratégica para a saúde estadual. O Dom Orione também recebeu candidatos ao Senado Federal e diversos candidatos a deputado federal e estadual. Essas visitas evidenciam o reconhecimento de uma instituição cuja contribuição atravessa gerações e alcança parte expressiva da população.
Esse diálogo teve um desdobramento concreto na carta-compromisso assinada pela senadora Dorinha, que assumiu o compromisso de defender e promover quatro prioridades apresentadas pelo hospital, no âmbito de suas atribuições e, caso eleita, de seu mandato. O documento também prevê a manutenção do diálogo com a instituição e o acompanhamento da implementação das medidas pactuadas.
A primeira prioridade é a regularidade e a previsibilidade dos pagamentos, com o cumprimento integral dos contratos nos prazos estabelecidos. A continuidade da assistência depende da manutenção das equipes, da aquisição de insumos e da capacidade de honrar obrigações. A estabilidade dos repasses permite planejar e sustentar o funcionamento de uma estrutura que atende diariamente às necessidades da população.
O segundo compromisso é o reconhecimento e a valorização efetiva do Hospital Dom Orione na política estadual de saúde. Isso significa assegurar diálogo permanente, participação nas pactuações da rede e condições contratuais compatíveis com os custos, a complexidade e a qualidade dos serviços prestados. A relevância reconhecida nas visitas precisa orientar as decisões de gestão.
O terceiro ponto prevê o início de uma redução gradual e planejada dos serviços SUS atualmente assumidos pela instituição. Trata-se de estabelecer uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades assistenciais, considerando a capacidade operacional e a sustentabilidade do hospital. Esse processo deverá contar com etapas, prazos e alternativas de atendimento, acompanhado da ampliação da capacidade de outras unidades, para preservar o acesso da população.
O quarto compromisso é o fortalecimento da atenção básica nos municípios, especialmente do pré-natal. A proposta exige responsabilidades definidas, acompanhamento de resultados e cumprimento da oferta dos serviços. O cuidado com as gestantes precisa começar próximo de onde elas vivem e prosseguir de maneira organizada até os serviços de referência. A maternidade integra uma rede cuja responsabilidade deve ser compartilhada.
Ao reafirmarem a importância do Hospital Dom Orione, Dorinha e Vicentinho reconheceram uma realidade que os números tornam evidente: a instituição é um dos pilares da saúde tocantinense. Esse reconhecimento estabelece uma expectativa legítima de continuidade do diálogo e de atenção às necessidades apresentadas pelo hospital.
A missão do Dom Orione permanece vinculada à vida e ao cuidado com as pessoas. Para que continue sendo realizada com qualidade, precisa encontrar correspondência em compromissos públicos duradouros. Cuidar do Hospital Dom Orione é cuidar de milhares de famílias e assumir uma responsabilidade concreta com o futuro do Tocantins.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
O altar, o voto e a atualidade de Karl Marx
Por Claúdio Bento
Karl Marx continua provocando o nosso pensamento quase dois séculos depois de ter escrito algumas de suas mais conhecidas reflexões sobre religião. Em “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, Marx afirmou que a religião é “o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração” e “o ópio do povo”. A frase tornou-se célebre, mas frequentemente é utilizada de maneira simplificada, como se Marx tivesse simplesmente afirmado que a religião seria uma espécie de mentira inventada para enganar os pobres.
Não é tão simples assim.
E talvez esteja justamente aí a atualidade de Marx.
Ao falar da religião como “suspiro da criatura oprimida”, Marx reconhece que existe sofrimento real por trás da experiência religiosa. A fé pode nascer da dor, da injustiça, da solidão e da necessidade humana de encontrar sentido em uma realidade muitas vezes cruel. Mas existe uma palavra nessa reflexão que merece ser recuperada: protesto.
A religião não é apenas expressão do sofrimento. Ela também pode ser protesto contra ele.
Essa dimensão é fundamental para compreender a relação entre religião e política nos dias atuais.
Uma igreja pode acolher uma pessoa desempregada, ajudar uma família que passa fome, oferecer solidariedade a alguém que enfrenta uma tragédia e devolver esperança a quem já não encontra sentido na própria existência. Pode ser espaço de convivência, pertencimento e organização comunitária. Pode, inclusive, estimular seus fiéis a lutar por justiça social.
Mas a mesma instituição que acolhe também possui autoridade. E toda autoridade pode ser utilizada de diferentes maneiras.
É justamente aí que surge a pergunta que considero mais importante: como uma mesma instituição religiosa pode produzir solidariedade, oferecer sentido ao sofrimento e, em determinadas circunstâncias, também contribuir para legitimar relações de dominação?
Essa é uma pergunta incômoda, mas necessária.
Não me parece correto afirmar que a religião seja, por natureza, alienante. Tampouco considero razoável colocar todos os religiosos e todas as lideranças religiosas no mesmo lugar. A história está cheia de exemplos de pessoas e comunidades religiosas que estiveram ao lado dos pobres, dos trabalhadores e dos grupos socialmente vulnerabilizados.
O problema começa quando a fé deixa de ser fonte de reflexão e passa a ser utilizada como instrumento de controle.
E isso pode acontecer na política.
Em período eleitoral, o altar pode se transformar em espaço de orientação política. Até aí, alguém poderia argumentar que todo cidadão, inclusive um líder religioso, possui direito à manifestação política. E possui.
O problema aparece quando a opinião do líder deixa de ser apresentada como opinião e passa a ser apresentada como verdade moral absoluta.
Quando um fiel ouve que votar em determinado partido é pecado, que determinado candidato representa o mal ou que uma determinada escolha eleitoral é uma exigência de Deus, estamos diante de algo muito mais complexo do que uma simples manifestação de preferência política.
Estamos diante do uso de uma autoridade religiosa para influenciar a consciência política de pessoas que depositam naquele líder uma relação de confiança.
E aqui está a minha preocupação.
O voto pertence ao eleitor.
Não pertence ao pastor, ao padre, ao bispo, ao padre, ao líder comunitário, ao partido, ao candidato ou à instituição religiosa.
A liberdade religiosa pressupõe também liberdade de consciência.
Uma pessoa pode ser profundamente religiosa e votar em qualquer candidato que considere adequado. Pode inclusive fundamentar sua decisão em valores religiosos. Isso faz parte da liberdade democrática.
O que merece reflexão é quando a pessoa deixa de avaliar os candidatos e passa simplesmente a obedecer a uma orientação porque teme desobedecer à autoridade religiosa.
Nesse momento, a fé pode deixar de ser instrumento de libertação e transformar-se em mecanismo de submissão.
E não há nada de novo nisso.
A história demonstra que instituições religiosas podem desempenhar papéis contraditórios. Em determinados momentos, contribuíram para legitimar estruturas de poder; em outros, foram fundamentais para enfrentá-las. A religião pode justificar a ordem existente, mas também pode produzir indignação contra essa mesma ordem.
É exatamente essa contradição que torna a reflexão de Marx tão atual.
Imagine, por exemplo, um trabalhador que passa seis dias por semana trabalhando, chega em casa exausto e tem pouco tempo para conviver com os filhos. Imagine que esse mesmo trabalhador seja convencido a apoiar políticos que defendem a manutenção de uma determinada organização do trabalho que ele próprio considera exaustiva.
Não quero aqui determinar qual deve ser a posição política de ninguém sobre a escala 6×1 ou sobre qualquer outra pauta. O que me interessa é a pergunta que deveria anteceder o voto:
Essa decisão política melhora ou piora concretamente as condições de vida de quem trabalha?
Essa pergunta deveria valer para todos os candidatos e todos os partidos.
Se alguém afirma defender a família, precisamos perguntar o que entende por família. Porque família também significa o pai que precisa trabalhar jornadas intermináveis, a mãe que não encontra tempo para os filhos, o trabalhador que não consegue descansar, o jovem que abandona os estudos porque precisa trabalhar e o idoso que passa a vida inteira trabalhando sem conseguir usufruir adequadamente do próprio tempo.
A defesa da família não deveria estar limitada a discursos sobre costumes.
Deveria incluir também salário, emprego, moradia, saúde, educação, segurança, descanso e qualidade de vida.
É aí que o pensamento de Marx volta a incomodar.
O trabalhador não vive apenas de ideias. Vive de condições materiais concretas.
Pode receber um discurso religioso poderoso sobre moral, família e bons costumes. Mas continuará enfrentando o preço dos alimentos, o aluguel, a jornada de trabalho, a falta de atendimento médico, a escola dos filhos e o transporte público.
E é justamente nessa distância entre o discurso e a realidade que precisamos colocar a consciência crítica.
A religião pode oferecer respostas para o sofrimento existencial. A política deveria enfrentar suas dimensões sociais e materiais.
O problema surge quando uma coisa substitui a outra.
Quando a pobreza é explicada exclusivamente pela falta de fé, deixa-se de discutir a estrutura econômica que produz desigualdade.
Quando o desemprego é tratado apenas como uma provação individual, desaparece do debate a responsabilidade das políticas econômicas.
Quando a violência é apresentada apenas como resultado da ausência de valores morais, deixamos de discutir suas causas sociais.
Quando o trabalhador é orientado a suportar uma condição de exploração como se ela fosse inevitável, deixamos de perguntar quem se beneficia daquela relação.
É nesse momento que o “ópio” de Marx ganha força como metáfora.
Não porque a religião seja simplesmente uma droga que entorpece os pobres, mas porque o consolo pode, em determinadas circunstâncias, tornar-se uma forma de acomodação diante de uma realidade que deveria ser transformada.
Mas há outra possibilidade.
O sofrimento pode produzir solidariedade.
A fé pode transformar indignação em organização.
A comunidade pode transformar dor individual em consciência coletiva.
O altar pode ser lugar de conforto, mas também pode ser lugar de denúncia.
É por isso que considero equivocada qualquer interpretação que coloque religião e emancipação necessariamente em lados opostos. A questão não é a existência da fé. A questão é o que fazemos socialmente com a fé.
Ela pode servir à dignidade humana ou à submissão.
Pode produzir solidariedade ou exclusão.
Pode estimular a consciência ou exigir obediência.
Pode questionar a injustiça ou simplesmente pedir que os injustiçados tenham paciência.
E talvez seja justamente essa ambivalência que Marx nos ajuda a enxergar.
Em uma democracia, ninguém precisa abandonar sua religião para votar livremente. Mas também não deveria precisar abandonar sua liberdade de consciência para permanecer em uma comunidade religiosa.
O eleitor pode ouvir seu pastor.
Pode ouvir seu padre.
Pode ouvir seu líder religioso.
Pode ouvir seu partido.
Pode ouvir seu candidato.
Pode ouvir seus amigos, seus familiares, os jornalistas, os pesquisadores e os analistas.
Mas, diante da urna, a decisão precisa continuar sendo dele.
Porque a fé é uma dimensão legítima da vida humana. A política também.
O que não podemos permitir é que uma seja utilizada para sequestrar a outra.
No próximo período eleitoral, talvez seja mais importante do que nunca recuperar uma pergunta simples: estamos votando porque refletimos sobre aquilo que acreditamos ou porque alguém que possui autoridade sobre nós mandou que votássemos assim?
Essa pergunta não é contra a religião.
É, antes, uma defesa da liberdade.
Marx dizia que a religião era o “suspiro da criatura oprimida”. Talvez devêssemos acrescentar: o suspiro pode ser apenas consolo, mas também pode ser o primeiro som de uma revolta contra aquilo que produz o sofrimento.
A verdadeira questão, portanto, não é eliminar o altar.
É impedir que o altar seja utilizado para substituir a consciência.
Porque uma democracia madura não exige que o cidadão deixe sua fé na porta da igreja.
Exige apenas que, ao entrar na cabine de votação, ele possa levar consigo aquilo que nenhuma liderança deveria conseguir retirar: a liberdade de pensar, questionar e escolher por si mesmo.
-------------------------------
terça-feira, 22 de setembro de 2026
A Trajetória Literária de Zacarias Martins: Poesia, Crônica e a Identidade Cultural do Tocantins
Por Simone Schneider/Jornal Cockatail
Resumo
Este artigo analisa a trajetória literária e jornalística do escritor Zacarias Martins, uma das figuras mais proeminentes na consolidação da identidade cultural da região Norte do Brasil, especificamente no Tocantins. Nascido em Belém do Pará em 1957 e radicado em Gurupi desde 1983, Martins desenvolveu uma obra multifacetada que transita entre a lírica amorosa, a crônica histórica local e o ativismo cultural. Por meio de uma revisão bibliográfica e documental de suas principais publicações, o estudo discute como sua produção poética inicial e sua posterior dedicação à prosa regionalista contribuíram para o fortalecimento das instituições literárias tocantinenses, culminando em sua atuação como membro-fundador de academias de letras no estado e na inserção de sua obra no cenário pedagógico universitário.
Palavras-chave: Zacarias Martins. Literatura Tocantinense. Gurupi. Identidade Cultural. Vestibular UnirG.
1 Introdução
A construção da identidade literária do estado do Tocantins, emancipado constitucionalmente em 1988, está intrinsecamente ligada ao fluxo migratório de intelectuais que adotaram a nova fronteira geográfica como lar e matéria-prima artística. No cenário da literatura sul-tocantinense, a simbiose entre o fazer jornalístico e a veia poética atua como um vetor de fixação da memória coletiva.
Entre esses agentes, destaca-se Zacarias Martins (nome literário de Zacarias Gomes Martins). Embora natural de Belém (PA), sua mudança para Gurupi em 1983 redefiniu tanto sua escrita quanto o próprio cenário cultural da região sul do estado. Este artigo propõe-se a mapear a evolução de sua produção ficcional e poética, dividindo-a em três fases principais: a gênese lírica no Pará, a consolidação cronística e memorialística em Gurupi, e seu impacto contemporâneo no ambiente escolar e nos exames seletivos de nível superior.
2 A Gênese Poética e a Lírica de Transição
A estreia literária de Zacarias Martins ocorreu ainda em solo paraense no fim da década de 1970. Sua produção poética inicial caracteriza-se por um lirismo que equilibra o classicismo e a sensibilidade moderna, frequentemente explorando temas universais como o amor, a efemeridade do tempo e o cotidiano urbano. Entre seus livros autorais de poesia figuram Transas do Coração (1978), O Poeta de Belém (1979), Poetar (1980), O Profeta da Felicidade (1984), Vox Versus (1986) e Pinga-Fogo (2004).
Análises estéticas de sua obra apontam para uma linguagem cuidada e dotada de musicalidade intrínseca. Poemas como "Sem você" e "O teu olhar", posteriormente resgatados no II Anuário da Poesia Paraense, demonstram a permanência dessa vertente afetiva e contemplativa ao longo das décadas, mesmo após o seu distanciamento físico de sua terra natal (SOUZA, 2016). Na transição para o Tocantins, essa lírica passa a incorporar elementos da paisagem geográfica e humana do Cerrado, marcando o início de sua fase madura.
3 O Jornalismo e a Crônica como Resgate Histórico
Ao fixar residência em Gurupi, Martins estreitou os laços entre a literatura e o fazer jornalístico. Atuou como editor da Perfil, considerada a primeira revista informativa do Tocantins (1989), e colaborou como correspondente em veículos de grande circulação regional, como O Progresso (Araguaína) e Diário Tocantinense (Palmas). Também participou da fundação do jornal Cocktail, de Gurupi, em 1990, juntamente com Paulo Albuquerque e Carlos Pires.
Essa vivência jornalística refinou seu olhar para a prosa diária, culminando no lançamento de Histórias da História de Gurupi em 2008. A obra afasta-se do rigor estritamente acadêmico da historiografia tradicional para abraçar a crônica afetiva e factual. Segundo Martins (2008), o registro das miudezas cotidianas e das figuras folclóricas locais é o que confere autenticidade à identidade de um povo, funcionando como um anteparo contra o esquecimento institucional.
4 A Obra Didática: O Impacto no Ambiente Escolar e nos Vestibulares da UnirG
A produção literária de Zacarias Martins transcende o espaço das bibliotecas e assume uma função pedagógica ativa no ecossistema educacional do Tocantins, alcançando desde a alfabetização infantil até o ensino superior.
No ambiente da educação básica e da alfabetização, a principal ferramenta do autor é o livro "As Aventuras de Gurupito" (2022). Por meio do projeto itinerante "Rodas de Conversa Literária", Martins percorre escolas das redes estadual e municipal utilizando o carismático personagem Gurupito para despertar o hábito da leitura em crianças. A obra cumpre um papel pedagógico fundamental ao aliar o lúdico à valorização do território, permitindo que os estudantes em fase de alfabetização se reconheçam geograficamente nas narrativas e desenvolvam o sentimento de pertencimento cultural desde a infância (MARTINS, 2022).
Nas séries finais e no ensino médio, a penetração de sua literatura ocorre por meio da crônica. Professores de Língua Portuguesa utilizam seus textos para trabalhar as nuances do humor literário e a estrutura do gênero textual. O ápice desse reconhecimento institucional deu-se por meio da Universidade de Gurupi (UnirG), que selecionou o livro Histórias da História de Gurupi (2008) como leitura obrigatória em duas edições de seu exame vestibular.
A escolha de obras focadas nas vivências locais cumpre uma função político-pedagógica de descolonização curricular. Ao preterir temporariamente o cânone tradicional do Sudeste brasileiro em favor da narrativa regional — seja com o público infantil em As Aventuras de Gurupito ou com os vestibulandos em Histórias da História de Gurupi —, as instituições de ensino validaram a produção tocantinense como portadora de densidade intelectual e eficácia didática. Conforme apontam os registros biobibliográficos da Academia Tocantinense de Letras (2023), essa chancela acadêmica inseriu o autor definitivamente no rol de leituras fundamentais para a compreensão da formação social da região norte.
5 O Ativismo Institucional e Novas Vertentes Literárias
A maturidade literária de Zacarias Martins confunde-se com o seu papel institucional no ecossistema cultural tocantinense. Ele participou ativamente da fundação das principais entidades literárias do estado, ocupando a Cadeira nº 21 da Academia Tocantinense de Letras (ATL) e a Cadeira nº 12 da Academia Gurupiense de Letras (AGL). Sua inserção em mais de 50 antologias nacionais e internacionais, com poemas traduzidos inclusive para o Esperanto, atesta a universalidade de sua escrita regional.
Em 2022, o autor expandiu seu escopo criativo ao publicar sua primeira obra voltada ao público infantil, intitulada As Aventuras de Gurupito. Este movimento em direção à literatura infantojuvenil demonstra a versatilidade de sua produção contemporânea, que se mantém conectada com a renovação de leitores na Amazônia Legal e no Cerrado brasileiro.
6 Considerações Finais
A trajetória literária de Zacarias Martins revela-se paradigmática para a compreensão da literatura contemporânea feita no Tocantins. Sua transição da poesia lírica dos anos 1970 para a crônica histórica e, posteriormente, para a literatura infantil reflete não apenas o amadurecimento de um estilo individual, mas também uma resposta às demandas de uma região em pleno processo de construção de sua identidade social.
A inserção de suas obras nos currículos escolares e nos vestibulares da UnirG consolida Martins como um elo indispensável entre a memória de Gurupi e o panorama das letras nacionais. Conclui-se que seu legado reside na capacidade de transformar a história local em patrimônio estético e pedagógico acessível a novas gerações.
Referências
ACADEMIA TOCANTINENSE DE LETRAS. Dicionário Biobibliográfico de Escritores Tocantinenses. Palmas: ATL, 2023.
MARTINS, Zacarias. As Aventuras de Gurupito. Gurupi: Editora Veloso, 2022.
MARTINS, Zacarias. Histórias da História de Gurupi. Gurupi: Editora Veloso, 2008.
MARTINS, Zacarias. Pinga-Fogo. 3. ed. Gurupi: Editora Veloso, 2004.
SOUZA, Airton (org.). II Anuário da Poesia Paraense. Marabá: Ed. do Autor, 2016.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Zacarias Martins: O PEQUI É NOSSO! Literatura de Cordel
Por Zacarias Martins
Peço licença aos poetas
Deste imenso Brasil varonil,
Pra cantar o solo sagrado
Sob o céu mais puro e azul,
Vou falar do Tocantins,
Onde o Cerrado reluz,
E o fruto que o povo ama,
Que a própria terra produz!
Falo do famoso pequi,
O ouro da nossa região,
Que veste o chão de amarelo
E alegra o meu coração,
Do Bico do Papagaio
Até o extremo sul,
O pequizeiro é o rei
Desse cerrado azul!
Tem o pequi bem grandão,
Cujo perfume se espalha,
Mas o mini pequi de Almas
É joia que nunca falha,
Pequenino e sem espinho,
Raridade sem igual,
Que orgulha o tocantinense
Nessa terra cultural!
Na cozinha da nossa gente
O tempero é uma beleza,
O pequi cozido no arroz
É o luxo da nossa mesa,
Com frango caipira ou carne,
Ou em forma de licor,
Quem prova o pequi daqui
Se apaixona pelo sabor!
Mas escute o meu aviso,
Pra não ter complicação:
O pequi não se morde,
Preste muita atenção!
Vá roendo bem de leve,
Com paciência e carinho,
Pois no centro do caroço
Tem um mar de espinho!
E depois da comilança,
O efeito é garantido,
O bicho passa três dias
Bem guardado no estômago,
Basta dar uma subidinha
Pro cheiro se espalhar:
Arroto de pequi
Faz o povo até desmaiar!
Viva o nosso Cerrado!
Viva a fruta abençoada!
O pequi do Tocantins
É nossa joia dourada,
Ninguém tira esse orgulho
Do povo dessa nação:
O pequi é nosso!
Zombando de mim
As pessoas não devem ficar.
Com o meu talento, enfim,
A vitória certa Deus me dará.
Recurso muito me faltou.
Insatisfeito quase enlouqueci.
As minhas preces Deus escutaram.
Satisfeito agora, venci!
Minha caminhada ainda não acabou.
Ainda continuo lutando.
Resolvendo os meus problemas eu vou
Talvez, minha vida modificando.
Indo em frente seguirei.
Não seu onde irei chegar.
Só Deus mesmo, saberá!...
sábado, 19 de setembro de 2026
Eli Borges amplia articulação e recebe apoio de empresários da Atual Cargas em sua caminhada ao Senado
Encontro com Sérgio Gomes Cardoso e sua irmã Zuleide Gomes, reforçou o diálogo do candidato do Republicanos com o setor produtivo e a defesa de pautas voltadas ao desenvolvimento do Tocantins.
Artistas e técnicos da cultura participam de plantão para orientar participação no processo eleitoral do CNPC
Atividade acontece nesta segunda-feira, 21 de setembro, em Porto Nacional, e terá atenção especial ao incentivo à participação das mulheres na política cultural
O Comitê de Cultura no Tocantins realiza, nesta segunda-feira, 21 de setembro, das 9h às 12h, o Plantão Tira-Dúvidas CNPC, na Secretaria de Cultura e Turismo de Porto Nacional. A atividade será aberta ao público e oferecerá orientações sobre participação e cadastro no processo eleitoral do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC).
O encontro é destinado a artistas, produtores, gestores, conselheiros, representantes de coletivos, pontos de cultura, organizações, grupos tradicionais e demais pessoas interessadas em conhecer e participar do processo eleitoral. A programação terá atenção especial ao incentivo à presença das mulheres nos espaços de representação e decisão da política cultural brasileira. A ação será ministrada pela produtora cultural Cláudia Roberta e o diretor de cultura de Porto Nacional, Neto Ayres. A realização é da Associação Gurupiense de Artesãos (AGA) em parceria com a Federação Tocantinense de Artes Cênicas (Fetac).
Durante o plantão, os participantes poderão esclarecer dúvidas relacionadas ao cadastro, às etapas do processo eleitoral e às formas de participação no CNPC. A proposta é tornar as informações mais acessíveis, aproximando agentes culturais do processo de escolha dos representantes da sociedade civil no Conselho.
Os mecanismos de participação social permitem que o poder público disponibilize informações, esclareça dúvidas e abra espaços de diálogo com a sociedade sobre ações e políticas de interesse coletivo. De acordo com o coordenador-geral do Comitê de Cultura no Tocantins, Kaká Nogueira, o plantão busca contribuir para que mais fazedores e fazedoras de cultura compreendam o funcionamento do processo e estejam aptos a participar. “Queremos garantir que as informações sobre o processo eleitoral do Conselho Nacional de Política Cultural cheguem aos territórios de forma clara e acessível. O plantão será um espaço para esclarecer dúvidas, orientar sobre o cadastro e incentivar a participação dos agentes culturais tocantinenses nesse importante espaço de representação e construção das políticas públicas de cultura”, afirma Kaká.
Participação das mulheres na cultura
Além das orientações gerais, a atividade pretende estimular especialmente o envolvimento das mulheres que atuam nos diferentes segmentos culturais. Segundo Kaká Nogueira, ampliar a presença feminina nos espaços de participação social é fundamental para que as políticas públicas considerem a diversidade das experiências e realidades existentes nos territórios. “As mulheres possuem uma atuação fundamental na cultura, seja na produção, na gestão, na criação artística, na preservação dos saberes tradicionais ou na mobilização comunitária. Precisamos incentivar essa participação também nos espaços de decisão, garantindo que suas experiências, demandas e propostas estejam representadas na construção da política cultural”, destaca o coordenador-geral.
O Comitê reforça que não é necessário possuir conhecimento prévio sobre o processo eleitoral para participar do plantão. A atividade foi planejada justamente para acolher dúvidas e auxiliar tanto quem já acompanha as ações do CNPC quanto quem está tendo o primeiro contato com o Conselho. “Este é um convite para todas as pessoas que fazem cultura em Porto Nacional e nos municípios da região. Participar dos espaços de representação é uma maneira de fortalecer a democracia cultural, defender as necessidades dos territórios e contribuir para políticas públicas mais diversas e conectadas com a realidade dos trabalhadores e trabalhadoras da cultura”, conclui Kaká Nogueira.
Serviço
Plantão Tira-Dúvidas CNPC
Data: 21 de setembro de 2026, segunda-feira
Horário: das 9h às 12h
Local: Secretaria de Cultura e Turismo de Porto Nacional
Público: atividade aberta a todas as pessoas interessadas, com atenção especial à participação das mulheres na cultura
Realização: Comitê de Cultura no Tocantins












