sábado, 3 de outubro de 2026

Processo eleitoral do CNPC ultrapassa 14 mil inscrições e amplia participação social na construção das políticas culturais


Comitê de Cultura no Tocantins destaca alcance nacional do processo, que reúne mais de 14 mil pessoas inscritas; Região Norte contabiliza 1.415 eleitores e 160 candidaturas

O processo eleitoral do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) alcançou 14.084 pessoas inscritas em todo o Brasil, após o encerramento das inscrições, no dia 30 de setembro. Desse total, 1.495 participantes também se inscreveram como candidatos e concorrem às vagas dos Colegiados Nacionais de Participação Social e, posteriormente, à composição da representação da sociedade civil no Plenário do Conselho. Os dados foram divulgados pelo Ministério da Cultura (MinC) nesta semana.

No Tocantins, o Comitê de Cultura no Tocantins acompanha o desenvolvimento do processo eleitoral e atua na circulação de informações sobre os mecanismos de participação social na política cultural. A eleição do CNPC mobiliza trabalhadores e trabalhadoras da cultura, artistas, produtores, mestres e mestras da cultura, pesquisadores, gestores e demais agentes dos diferentes segmentos culturais brasileiros.

De acordo com o balanço divulgado pelo MinC, todos os 21 Colegiados Nacionais de Participação Social registraram mais de 28 candidaturas, número suficiente para preencher a composição máxima estabelecida pelo Decreto nº 12.980, de 21 de maio de 2026: 14 representantes titulares e 14 suplentes em cada colegiado. As inscrições passam agora pela etapa de análise técnico-documental, conforme as regras do edital do processo eleitoral.

Região Norte reúne mais de 1,4 mil eleitores

Os números mostram participação de agentes culturais de todas as macrorregiões brasileiras. Na Região Norte foram registradas 160 candidaturas e 1.415 pessoas eleitoras, o equivalente a 10,7% das candidaturas e 10% do eleitorado inscrito no país.


Káká Nogueira, coordenador-geral do Comitê de Cultura no Tocantins

ara o coordenador-geral do Comitê de Cultura no Tocantins, Kaká Nogueira, o processo representa uma oportunidade de aproximar agentes culturais dos espaços nacionais de participação e de ampliar a presença das diferentes realidades territoriais nos debates sobre políticas públicas de cultura. “Um Conselho Nacional de Política Cultural forte precisa dialogar com a diversidade cultural que existe nos nossos territórios. Para nós, do Comitê de Cultura no Tocantins, é muito importante que os fazedores e fazedoras de cultura conheçam esses espaços de participação social, acompanhem o processo e compreendam como as decisões sobre as políticas culturais são construídas. A presença da Região Norte nesse processo também contribui para que nossas experiências, desafios, saberes e modos de fazer cultura estejam representados no debate nacional”, destaca Kaká Nogueira.

Mulheres são maioria entre as pessoas eleitoras

O levantamento divulgado pelo Ministério da Cultura também apresenta informações sobre o perfil dos participantes. Entre as pessoas inscritas para votar, 7.412 são mulheres cisgênero, mulheres transgênero e pessoas travestis, correspondendo a 52,6% do eleitorado registrado. Entre as candidaturas, esse grupo reúne 678 inscrições, ou 45,4% dos concorrentes.

No recorte étnico-racial e de ações afirmativas informado pelo Ministério, foram contabilizadas 397 candidaturas de pessoas negras, correspondentes a 26,6% do total de candidatos; 107 candidaturas indígenas, equivalentes a 7,2%; e 103 candidaturas de pessoas com deficiência, que representam 6,9% dos concorrentes.

A representação regional também aparece distribuída por todo o território nacional. Além dos números da Região Norte, o Sudeste registrou 548 candidaturas e 5.334 eleitores; o Nordeste, 433 candidaturas e 4.421 eleitores; o Sul, 182 candidaturas e 1.814 eleitores; e o Centro-Oeste, 155 candidaturas e 1.016 pessoas eleitoras.

Teatro lidera número de eleitores; Música tem mais candidaturas

O processo eleitoral está organizado em 21 áreas e segmentos culturais, reunindo campos como artes visuais, artesanato, audiovisual, circo, dança, música, teatro, patrimônio, culturas tradicionais, povos indígenas, comunidades quilombolas, Cultura Viva, culturas urbanas e periféricas, economia criativa, livro e leitura, entre outros.

Em número de pessoas eleitoras, o Colegiado de Teatro registrou a maior participação, com 1.335 inscrições, seguido pelo de Patrimônio Imaterial, com 1.307, e pelo Audiovisual, com 1.248. Já entre as candidaturas, o maior número foi registrado no colegiado de Música, com 144 candidatos, seguido pelo Audiovisual, com 117, e Dança, com 92.

A eleição é realizada pelo modelo de voto por pares. Isso significa que cada pessoa eleitora habilitada votará nas candidaturas do Colegiado Nacional de Participação Social para o qual se inscreveu. As candidaturas habilitadas são automaticamente consideradas eleitoras no respectivo colegiado.

O que é o CNPC

O Conselho Nacional de Política Cultural é um órgão consultivo, fiscalizador e deliberativo e integra a estrutura de participação social do Sistema Nacional de Cultura. Entre suas atribuições estão a proposição, aprovação e acompanhamento de diretrizes relacionadas ao Plano Nacional de Cultura, além de competências relacionadas às políticas e aos mecanismos nacionais de financiamento da cultura.

A composição é paritária entre representantes do Poder Público e da sociedade civil. Neste processo, a representação da sociedade civil passa a ser escolhida por voto direto e por pares, conforme previsto no marco regulatório do Sistema Nacional de Cultura e na regulamentação do CNPC estabelecida em 2026.

Cada um dos 21 colegiados poderá ter até 14 representantes titulares e 14 suplentes da sociedade civil. Entre as pessoas eleitas para esses colegiados será definida a representação da sociedade civil no Plenário do CNPC, composta por 21 titulares e 21 suplentes.

Processo entra na fase de análise documental

Com o encerramento das inscrições, o processo eleitoral entrou na etapa de análise técnico-documental, prevista para ocorrer de 1º a 13 de outubro. O resultado preliminar das inscrições habilitadas deverá ser divulgado em 14 de outubro. Entre os dias 15 e 19 de outubro, será possível apresentar recursos contra o resultado preliminar, e a análise desses recursos está prevista para 20 a 26 de outubro. A relação definitiva de candidaturas e eleitores habilitados deverá ser publicada em 27 de outubro.

A votação eletrônica está programada para o período de 11 a 15 de novembro, por meio da plataforma Vota Cultura. O cronograma oficial prevê ainda etapas posteriores relacionadas à apuração e aos procedimentos estabelecidos para ações afirmativas, com homologação do resultado final prevista para 2 de dezembro de 2026.



Livro resgata a história de Gurupi a partir da memória de sua gente

Obra de Eliosmar Veloso se encontra no processo de pré-venda e o lançamento está previsto para o mês de novembro


Por Zacarias Martins

Texto e fotos


A história de Gurupi, construída ao longo de décadas por pioneiros, trabalhadores, educadores, comerciantes, artistas, lideranças e tantas pessoas que contribuíram para o desenvolvimento do município, ganha um novo registro em livro.

Em novembro próximo, será lançado pela Editora Veloso, o livro “GURUPI — Uma História Contada por Sua Gente: dos primeiros caminhos à Capital da Amizade”, de autoria do escritor, editor e pesquisador Eliosmar Veloso.

A obra apresenta uma ampla abordagem sobre a trajetória histórica de Gurupi, desde os caminhos que antecederam a formação do povoado, passando pela chegada dos pioneiros, a construção da Rodovia Belém-Brasília, a emancipação política e o crescimento urbano, econômico, educacional, social e cultural da cidade.

Capa do livro livro “GURUPI — Uma História Contada por Sua Gente: dos primeiros caminhos à Capital da Amizade”, de autoria do escritor, editor e pesquisador Eliosmar Veloso.


Valorizando pessoas

Mais do que registrar datas e acontecimentos, o livro procura valorizar as pessoas que ajudaram a construir Gurupi. Ao longo de suas páginas, personagens conhecidos da história local dividem espaço com homens e mulheres que participaram do cotidiano da cidade e contribuíram, cada um à sua maneira, para a formação da identidade gurupiense.

Preocupação com a veracidade histórica

O trabalho é resultado de pesquisa em diferentes fontes, confrontação de informações e também da preservação de memórias e testemunhos relacionados à trajetória do município. A preocupação com a veracidade histórica e documental orientou a elaboração da obra, buscando oferecer ao leitor um material que possa servir tanto à leitura quanto à consulta de estudantes, professores, pesquisadores e futuras gerações.


Perfil do autor

Eliosmar Veloso, nome literário de Eliosmar Ferreira Batista, nasceu em Marabá (PA), em 14 de março de 1962, e reside no Tocantins desde 1981. É poeta, escritor, dramaturgo, diretor teatral, artesão, editor e ativista cultural, com uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada às artes, à literatura e à cultura.

Em Gurupi, sua atuação está diretamente relacionada a diferentes momentos da história cultural do município. Escreveu e dirigiu mais de 30 espetáculos teatrais, foi diretor do Centro Cultural Mauro Cunha, coordenador de Arte e Cultura da Secretaria Municipal de Educação, presidente da Associação dos Artesãos de Gurupi e é membro fundador da Academia Gurupiense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 02 e exerceu a presidência da instituição.

Obras publicadas

Na literatura, Veloso estreou em 1986, com o livro de poesias “O Amor e a Vida”. Posteriormente publicou “Três Vias” (2000), reunindo textos teatrais; “Vestígios” (2004), poesia; “Caminho de Pedras” (2004), de caráter autobiográfico; e o romance “Janela da Liberdade” (2009), obra que posteriormente chegou à terceira edição e integrou a relação de obras literárias de processo seletivo da Universidade de Gurupi.

Obras de referência

Além de suas obras individuais, Eliosmar Veloso desenvolve há décadas trabalhos de incentivo à publicação de novos escritores. É responsável pela organização de edições do Anuário de Poetas e Escritores, projeto que ajudou a divulgar a produção literária de autores de Gurupi e de diversas regiões do Tocantins.

Como editor e diretor da Editora Veloso, também tem dedicado parte de sua trajetória à publicação de obras de escritores iniciantes e veteranos, contribuindo para a circulação e preservação da produção literária regional.



sábado, 26 de setembro de 2026

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Plantão Tira-Dúvidas sobre eleições do CNPC chega a Palmas

 


O Comitê de Cultura no Tocantins realiza, no sábado, dia 26 de setembro, das 15h às 18h, em Palmas, mais uma edição do Plantão Tira-Dúvidas CNPC, atividade gratuita voltada à orientação de artistas, produtores, gestores, fazedores de cultura, representantes de coletivos e demais pessoas interessadas em participar do processo eleitoral do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC).

O encontro será realizado na sede da Federação Tocantinense de Artes Cênicas (Fetac), localizada na Quadra ACSV SO 31, Avenida LO-09, Lote 2, Sala 6, Plano Diretor Sul, em Palmas. A atividade será conduzida pelo produtor cultural Justino Vettore e terá como foco esclarecer dúvidas sobre o cadastro, a documentação exigida, as formas de participação e as etapas do processo eleitoral. O plantão é aberto a todos os públicos e pretende facilitar o acesso às informações para quem ainda encontra dificuldades ou tem dúvidas sobre como participar.

O momento ocorre em uma fase importante do processo eleitoral. O prazo para inscrições de pessoas eleitoras e candidatas foi prorrogado até 30 de setembro de 2026, e todo o procedimento é realizado pela plataforma digital Vota Cultura. O processo definirá representantes da sociedade civil para o mandato 2026-2029 no Plenário do CNPC e nos 21 Colegiados Nacionais de Participação Social.

Orientação para ampliar a participação

Segundo o coordenador-geral do Comitê de Cultura no Tocantins, Kaká Nogueira, a realização dos plantões busca aproximar os agentes culturais tocantinenses dos espaços nacionais de participação social e garantir que as informações sobre o processo eleitoral cheguem de forma acessível aos territórios. “Nosso trabalho é justamente fazer com que a informação chegue até quem está fazendo cultura na ponta. Muitas vezes, artistas, produtores, mestres, coletivos e organizações querem participar desses espaços, mas encontram dúvidas sobre cadastro, documentação ou sobre o próprio funcionamento do processo. O plantão existe para orientar, esclarecer e contribuir para que mais pessoas do Tocantins tenham condições de participar”, destaca Kaká Nogueira.

Para o coordenador, ampliar a presença de agentes culturais do estado nos espaços de participação também contribui para que as diferentes realidades do Tocantins façam parte dos debates nacionais sobre políticas públicas de cultura.

“É importante que os fazedores e fazedoras de cultura compreendam que esses espaços também pertencem a eles. Quando ampliamos a participação social, ampliamos também a diversidade de experiências, territórios e segmentos presentes na construção das políticas culturais. Por isso, nosso convite é para que as pessoas venham, tragam suas dúvidas e conheçam melhor esse processo”, complementa.

Processo eleitoral do CNPC

O Conselho Nacional de Política Cultural integra o Sistema Nacional de Cultura e atua como espaço de participação social na formulação, acompanhamento e avaliação das políticas públicas de cultura. No processo eleitoral de 2026, serão escolhidos representantes da sociedade civil para o triênio 2026-2029.

A eleição ocorre de forma digital, por meio da plataforma Vota Cultura, com acesso utilizando a conta Gov.br. Há modalidades de participação como pessoa eleitora e como pessoa candidata, cada uma com critérios específicos de idade, atuação cultural e documentação.

Para participar como pessoa eleitora, é necessário ter pelo menos 16 anos e comprovar, no mínimo, um ano de atuação, vínculo ou pesquisa na área do colegiado escolhido. Para candidatura, é necessário ter 18 anos ou mais e comprovar pelo menos três anos de atuação cultural na área correspondente.

 

Serviço

Plantão Tira-Dúvidas CNPC – Palmas

Data: 26 de setembro de 2026

Horário: 15h às 18h

Local: Sede da FETAC

Endereço: Quadra ACSV SO 31, Avenida LO-09, Lote 2, Sala 6 – Plano Diretor Sul, Palmas (TO)

Mediação: Justino Vettore – produtor cultural

Participação: gratuita e aberta a todos os públicos

Realização: Comitê de Cultura no Tocantins

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O futuro da saúde do Tocantins passa pelo Hospital Dom Orione

O futuro da saúde pública do Tocantins exige decisões capazes de assegurar a continuidade do cuidado oferecido à população. Nesse compromisso, o Hospital Dom Orione ocupa uma posição estratégica. Com cinquenta anos de serviço à vida, a instituição representa uma estrutura essencial para a assistência em Araguaína e na região, cuja sustentabilidade precisa estar entre as prioridades de quem pretende governar o estado.

Os números demonstram essa responsabilidade. Segundo os dados institucionais, o hospital responde por mais de 300 mil atendimentos pelo Sistema Único de Saúde, correspondentes a aproximadamente 11% dos atendimentos do SUS no Tocantins. Sua maternidade acolhe, anualmente, o nascimento de mais de 6 mil crianças, cerca de 33% dos nascimentos do estado. São milhares de famílias que encontram na instituição atendimento, acolhimento e esperança.

Mantido pela Pequena Obra da Divina Providência, o Hospital Dom Orione construiu sua trajetória unindo missão filantrópica e responsabilidade assistencial. Essa presença precisa ser considerada nas decisões sobre financiamento, organização dos serviços e distribuição das responsabilidades na rede de saúde.

Durante este período eleitoral, os dois principais candidatos ao Governo do Tocantins, a senadora Dorinha e o deputado Vicentinho, visitaram o hospital e reafirmaram a importância da instituição e sua posição estratégica para a saúde estadual. O Dom Orione também recebeu candidatos ao Senado Federal e diversos candidatos a deputado federal e estadual. Essas visitas evidenciam o reconhecimento de uma instituição cuja contribuição atravessa gerações e alcança parte expressiva da população.

Esse diálogo teve um desdobramento concreto na carta-compromisso assinada pela senadora Dorinha, que assumiu o compromisso de defender e promover quatro prioridades apresentadas pelo hospital, no âmbito de suas atribuições e, caso eleita, de seu mandato. O documento também prevê a manutenção do diálogo com a instituição e o acompanhamento da implementação das medidas pactuadas.

A primeira prioridade é a regularidade e a previsibilidade dos pagamentos, com o cumprimento integral dos contratos nos prazos estabelecidos. A continuidade da assistência depende da manutenção das equipes, da aquisição de insumos e da capacidade de honrar obrigações. A estabilidade dos repasses permite planejar e sustentar o funcionamento de uma estrutura que atende diariamente às necessidades da população.

O segundo compromisso é o reconhecimento e a valorização efetiva do Hospital Dom Orione na política estadual de saúde. Isso significa assegurar diálogo permanente, participação nas pactuações da rede e condições contratuais compatíveis com os custos, a complexidade e a qualidade dos serviços prestados. A relevância reconhecida nas visitas precisa orientar as decisões de gestão.

O terceiro ponto prevê o início de uma redução gradual e planejada dos serviços SUS atualmente assumidos pela instituição. Trata-se de estabelecer uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades assistenciais, considerando a capacidade operacional e a sustentabilidade do hospital. Esse processo deverá contar com etapas, prazos e alternativas de atendimento, acompanhado da ampliação da capacidade de outras unidades, para preservar o acesso da população.

O quarto compromisso é o fortalecimento da atenção básica nos municípios, especialmente do pré-natal. A proposta exige responsabilidades definidas, acompanhamento de resultados e cumprimento da oferta dos serviços. O cuidado com as gestantes precisa começar próximo de onde elas vivem e prosseguir de maneira organizada até os serviços de referência. A maternidade integra uma rede cuja responsabilidade deve ser compartilhada.

Ao reafirmarem a importância do Hospital Dom Orione, Dorinha e Vicentinho reconheceram uma realidade que os números tornam evidente: a instituição é um dos pilares da saúde tocantinense. Esse reconhecimento estabelece uma expectativa legítima de continuidade do diálogo e de atenção às necessidades apresentadas pelo hospital.

A missão do Dom Orione permanece vinculada à vida e ao cuidado com as pessoas. Para que continue sendo realizada com qualidade, precisa encontrar correspondência em compromissos públicos duradouros. Cuidar do Hospital Dom Orione é cuidar de milhares de famílias e assumir uma responsabilidade concreta com o futuro do Tocantins.






quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O altar, o voto e a atualidade de Karl Marx

 


Por Claúdio Bento

Karl Marx continua provocando o nosso pensamento quase dois séculos depois de ter escrito algumas de suas mais conhecidas reflexões sobre religião. Em “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, Marx afirmou que a religião é “o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração” e “o ópio do povo”. A frase tornou-se célebre, mas frequentemente é utilizada de maneira simplificada, como se Marx tivesse simplesmente afirmado que a religião seria uma espécie de mentira inventada para enganar os pobres.

Não é tão simples assim.

E talvez esteja justamente aí a atualidade de Marx.

Ao falar da religião como “suspiro da criatura oprimida”, Marx reconhece que existe sofrimento real por trás da experiência religiosa. A fé pode nascer da dor, da injustiça, da solidão e da necessidade humana de encontrar sentido em uma realidade muitas vezes cruel. Mas existe uma palavra nessa reflexão que merece ser recuperada: protesto.

A religião não é apenas expressão do sofrimento. Ela também pode ser protesto contra ele.

Essa dimensão é fundamental para compreender a relação entre religião e política nos dias atuais.

Uma igreja pode acolher uma pessoa desempregada, ajudar uma família que passa fome, oferecer solidariedade a alguém que enfrenta uma tragédia e devolver esperança a quem já não encontra sentido na própria existência. Pode ser espaço de convivência, pertencimento e organização comunitária. Pode, inclusive, estimular seus fiéis a lutar por justiça social.

Mas a mesma instituição que acolhe também possui autoridade. E toda autoridade pode ser utilizada de diferentes maneiras.

É justamente aí que surge a pergunta que considero mais importante: como uma mesma instituição religiosa pode produzir solidariedade, oferecer sentido ao sofrimento e, em determinadas circunstâncias, também contribuir para legitimar relações de dominação?

Essa é uma pergunta incômoda, mas necessária.

Não me parece correto afirmar que a religião seja, por natureza, alienante. Tampouco considero razoável colocar todos os religiosos e todas as lideranças religiosas no mesmo lugar. A história está cheia de exemplos de pessoas e comunidades religiosas que estiveram ao lado dos pobres, dos trabalhadores e dos grupos socialmente vulnerabilizados.

O problema começa quando a fé deixa de ser fonte de reflexão e passa a ser utilizada como instrumento de controle.

E isso pode acontecer na política.

Em período eleitoral, o altar pode se transformar em espaço de orientação política. Até aí, alguém poderia argumentar que todo cidadão, inclusive um líder religioso, possui direito à manifestação política. E possui.

O problema aparece quando a opinião do líder deixa de ser apresentada como opinião e passa a ser apresentada como verdade moral absoluta.

Quando um fiel ouve que votar em determinado partido é pecado, que determinado candidato representa o mal ou que uma determinada escolha eleitoral é uma exigência de Deus, estamos diante de algo muito mais complexo do que uma simples manifestação de preferência política.

Estamos diante do uso de uma autoridade religiosa para influenciar a consciência política de pessoas que depositam naquele líder uma relação de confiança.

E aqui está a minha preocupação.

O voto pertence ao eleitor.

Não pertence ao pastor, ao padre, ao bispo, ao padre, ao líder comunitário, ao partido, ao candidato ou à instituição religiosa.

A liberdade religiosa pressupõe também liberdade de consciência.

Uma pessoa pode ser profundamente religiosa e votar em qualquer candidato que considere adequado. Pode inclusive fundamentar sua decisão em valores religiosos. Isso faz parte da liberdade democrática.

O que merece reflexão é quando a pessoa deixa de avaliar os candidatos e passa simplesmente a obedecer a uma orientação porque teme desobedecer à autoridade religiosa.

Nesse momento, a fé pode deixar de ser instrumento de libertação e transformar-se em mecanismo de submissão.

E não há nada de novo nisso.

A história demonstra que instituições religiosas podem desempenhar papéis contraditórios. Em determinados momentos, contribuíram para legitimar estruturas de poder; em outros, foram fundamentais para enfrentá-las. A religião pode justificar a ordem existente, mas também pode produzir indignação contra essa mesma ordem.

É exatamente essa contradição que torna a reflexão de Marx tão atual.

Imagine, por exemplo, um trabalhador que passa seis dias por semana trabalhando, chega em casa exausto e tem pouco tempo para conviver com os filhos. Imagine que esse mesmo trabalhador seja convencido a apoiar políticos que defendem a manutenção de uma determinada organização do trabalho que ele próprio considera exaustiva.

Não quero aqui determinar qual deve ser a posição política de ninguém sobre a escala 6×1 ou sobre qualquer outra pauta. O que me interessa é a pergunta que deveria anteceder o voto:

Essa decisão política melhora ou piora concretamente as condições de vida de quem trabalha?

Essa pergunta deveria valer para todos os candidatos e todos os partidos.

Se alguém afirma defender a família, precisamos perguntar o que entende por família. Porque família também significa o pai que precisa trabalhar jornadas intermináveis, a mãe que não encontra tempo para os filhos, o trabalhador que não consegue descansar, o jovem que abandona os estudos porque precisa trabalhar e o idoso que passa a vida inteira trabalhando sem conseguir usufruir adequadamente do próprio tempo.

A defesa da família não deveria estar limitada a discursos sobre costumes.

Deveria incluir também salário, emprego, moradia, saúde, educação, segurança, descanso e qualidade de vida.

É aí que o pensamento de Marx volta a incomodar.

O trabalhador não vive apenas de ideias. Vive de condições materiais concretas.

Pode receber um discurso religioso poderoso sobre moral, família e bons costumes. Mas continuará enfrentando o preço dos alimentos, o aluguel, a jornada de trabalho, a falta de atendimento médico, a escola dos filhos e o transporte público.

E é justamente nessa distância entre o discurso e a realidade que precisamos colocar a consciência crítica. 

A religião pode oferecer respostas para o sofrimento existencial. A política deveria enfrentar suas dimensões sociais e materiais.

O problema surge quando uma coisa substitui a outra.

Quando a pobreza é explicada exclusivamente pela falta de fé, deixa-se de discutir a estrutura econômica que produz desigualdade.

Quando o desemprego é tratado apenas como uma provação individual, desaparece do debate a responsabilidade das políticas econômicas.

Quando a violência é apresentada apenas como resultado da ausência de valores morais, deixamos de discutir suas causas sociais.

Quando o trabalhador é orientado a suportar uma condição de exploração como se ela fosse inevitável, deixamos de perguntar quem se beneficia daquela relação.

É nesse momento que o “ópio” de Marx ganha força como metáfora.

Não porque a religião seja simplesmente uma droga que entorpece os pobres, mas porque o consolo pode, em determinadas circunstâncias, tornar-se uma forma de acomodação diante de uma realidade que deveria ser transformada.

Mas há outra possibilidade.

O sofrimento pode produzir solidariedade.

A fé pode transformar indignação em organização.

A comunidade pode transformar dor individual em consciência coletiva.

O altar pode ser lugar de conforto, mas também pode ser lugar de denúncia.

É por isso que considero equivocada qualquer interpretação que coloque religião e emancipação necessariamente em lados opostos. A questão não é a existência da fé. A questão é o que fazemos socialmente com a fé.

Ela pode servir à dignidade humana ou à submissão.

Pode produzir solidariedade ou exclusão.

Pode estimular a consciência ou exigir obediência.

Pode questionar a injustiça ou simplesmente pedir que os injustiçados tenham paciência.

E talvez seja justamente essa ambivalência que Marx nos ajuda a enxergar.

Em uma democracia, ninguém precisa abandonar sua religião para votar livremente. Mas também não deveria precisar abandonar sua liberdade de consciência para permanecer em uma comunidade religiosa.

O eleitor pode ouvir seu pastor.

Pode ouvir seu padre.

Pode ouvir seu líder religioso.

Pode ouvir seu partido.

Pode ouvir seu candidato.

Pode ouvir seus amigos, seus familiares, os jornalistas, os pesquisadores e os analistas.

Mas, diante da urna, a decisão precisa continuar sendo dele.

Porque a fé é uma dimensão legítima da vida humana. A política também.

O que não podemos permitir é que uma seja utilizada para sequestrar a outra.

No próximo período eleitoral, talvez seja mais importante do que nunca recuperar uma pergunta simples: estamos votando porque refletimos sobre aquilo que acreditamos ou porque alguém que possui autoridade sobre nós mandou que votássemos assim?

Essa pergunta não é contra a religião.

É, antes, uma defesa da liberdade.

Marx dizia que a religião era o “suspiro da criatura oprimida”. Talvez devêssemos acrescentar: o suspiro pode ser apenas consolo, mas também pode ser o primeiro som de uma revolta contra aquilo que produz o sofrimento.

A verdadeira questão, portanto, não é eliminar o altar.

É impedir que o altar seja utilizado para substituir a consciência.

Porque uma democracia madura não exige que o cidadão deixe sua fé na porta da igreja.

Exige apenas que, ao entrar na cabine de votação, ele possa levar consigo aquilo que nenhuma liderança deveria conseguir retirar: a liberdade de pensar, questionar e escolher por si mesmo.

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